A Assembleia Nacional da Pastoral Familiar, realizada na última semana, em João Pessoa (PB), apontou quais os principais temas abordados em 2026. Os 10 anos da Amoris Laetitia e os 45 anos da Familiaris Consortio, Exortações Apostólicas publicadas pelo Papa Francisco e por São João Paulo II, estarão no centro das discussões e eventos promovidos pela Comissão Episcopal para a Vida e a Família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
A iniciativa de celebrar as duas cartas encíclicas já foi compartilhada com os bispos por meio de uma carta enviada aos representantes das dioceses de todo o país. A carta ainda contém sugestões de ações para serem realizadas localmente.
Leia na íntegra o texto:
No ano de 2026, em que celebramos os 45 anos da Exortação Apostólica Familiaris Consortio, de São João Paulo II, e os 10 anos da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, do Papa Francisco, somos convidados a renovar a reflexão e o compromisso com a vocação e a missão da família cristã no mundo contemporâneo. Como nos recorda o Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, n. 48: “A família é a célula primeira e vital da sociedade” e a “Igreja doméstica”, lugar privilegiado de transmissão da fé e do amor. O ano de 2026 será uma feliz oportunidade para a Pastoral Familiar reforçar sua missão e promover iniciativas que fortaleçam os laços familiares à luz do Evangelho e do Magistério.
O Papa Leão XIV, em seu discurso aos diplomatas (16 de maio de 2025), reafirmou que “o casamento entre um homem e uma mulher é o fundamento da sociedade” e que “investir na família, fundada na união estável entre um homem e uma mulher, é essencial para construir sociedades civis harmoniosas e pacíficas”. Essa reafirmação fortalece o magistério perene da Igreja sobre a família como base da vida social e eclesial.
A Familiaris Consortio, n. 11, apresenta a família como comunidade de amor e vida, fundada no sacramento do matrimônio, que é “uma aliança de amor entre um homem e uma mulher, ordenada ao bem dos cônjuges e à geração e educação dos filhos”. São João Paulo II enfatiza que o amor conjugal transcende o casal, tornando-os “cooperadores com Deus no dom da vida a uma nova pessoa humana” (FC 14). Essa visão sacramental e antropológica permanece como fundamento sólido para a pastoral familiar, mesmo diante dos desafios culturais e sociais que fragilizam a família.
O Papa Leão XIV, em sua mensagem ao Seminário das Famílias, em 2 de junho de 2025, também destaca que “na família, a fé é transmitida de geração em geração, como alimento da mesa e afeto do coração”, sublinhando a importância da família na transmissão da fé e dos valores cristãos.
Há dez anos, Amoris Laetitia aprofunda essa missão com um olhar pastoral sensível às realidades concretas das famílias. O Papa Francisco, no número 305, nos lembra que “a Igreja não pode renunciar a propor a exigência do ideal evangélico, mas também não pode deixar de reconhecer as situações concretas e as limitações que afetam muitas famílias”. Continua o Papa, nos números 291-312, a nos convidar a um discernimento misericordioso, acolhendo as fragilidades humanas e acompanhando as famílias em seu caminho de crescimento e santificação. Leão XIV, em mensagem no seminário “Evangelizar com as Famílias”, reforça a missão da Igreja de “caminhar com as famílias e ajudá-las a encontrar a fé, especialmente conscientizando seus filhos sobre a paternidade de Deus”, mostrando a continuidade e a atualidade do magistério eclesial.
“A pastoral não é outra coisa que o exercício da maternidade na Igreja. A Igreja dá à luz, amamenta, faz crescer, corrige, alimenta, leva pela mão. Requer-se, pois, uma Igreja capaz de redescobrir as entranhas maternas da misericórdia. Sem misericórdia, pouco se pode fazer hoje para inserir-se num mundo de feridos” (Discurso do Papa Francisco ao Episcopado Brasileiro, 27 de julho de 2013).
É oportuno contemplar a imagem do Bom Pastor e lembrar a missão e o objetivo de toda pastoral. A graça batismal nos dá a força de oferecer a alegria do Evangelho: Caminho, Verdade e Vida. Não precisamos e não devemos inventar nada. Basta identificarmo-nos com Cristo Jesus, fazer o que Ele fez, como fez e a quem fez, orientados pela Palavra. Na medida d’Ele, com a unção batismal e com o amor pastoral d’Ele, pois a nossa referência é sempre Ele. Por isso, nos é proposto, Pastoral Familiar do Brasil, imitar o Bom Pastor na medida — não rasa, e sim transbordante. Se não for para pastorear, perde-se o sentido do ser.
A Palavra de Deus sustenta esta missão: “O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se vangloria, não se ensoberbece” (1Cor 13,4). A família é chamada a viver este amor que reflete o próprio amor de Cristo pela Igreja, sendo “sinal e instrumento da comunhão de Deus com os homens” (FC 17). Que este ano celebrativo seja ocasião para reafirmarmos nossa esperança e compromisso em promover a dignidade da família, fortalecendo-a como espaço de vida, fé e amor. Que, inspirados pela Sagrada Família de Nazaré, modelo e protetora de todas as famílias, sejamos guiados pelo Espírito Santo para sermos testemunhas vivas do Evangelho da família no mundo de hoje.
Fraternalmente,
Dom Bruno Eliseu Versari
Bispo da diocese de Ponta Grossa – PR
Presidente da Comissão Episcopal para a Vida e a Família da CNBB
Dom Reginei Modolo
Bispo auxiliar da Arquidiocese de Curitiba – PR
Presidente da Comissão Especial de Bioética da CNBB
Dom Moacir Silva Arantes
Bispo da diocese de Barreiras – BA
Membro da Comissão Episcopal para a Vida e a Família da CNBB
Pe. Rodolfo Chagas Pinho
Presbítero da Diocese de Jacarezinho – PR, Assessor da Comissão Episcopal para a Vida e a Família da CNBB e Secretário Executivo Nacional da Pastoral Familiar