Queridos irmãos e irmãs!
O Papa Francisco, a 19 de março de
2016, como resultado de três anos de discernimento sinodal sustentados pelo Ano
Santo da Misericórdia, ofereceu à Igreja universal uma luminosa mensagem de
esperança a respeito do amor conjugal e familiar: a Exortação Apostólica Amoris
laetitia. Neste décimo aniversário, queremos render graças ao Senhor pelo
impulso dado ao estudo e à conversão pastoral da Igreja e pedir-lhe a coragem
de continuar o caminho, acolhendo sem cessar o Evangelho, na alegria de poder
anunciá-lo a todos.
Como ensina o Concílio Vaticano II, a
família é «o fundamento da sociedade», [1] dom de Deus e
«escola de valorização humana». [2] Por meio do Sacramento
do matrimónio, os cônjuges cristãos constituem uma espécie de «Igreja
doméstica», [3] cujo papel é essencial na educação e
transmissão da fé. Na esteira do impulso conciliar, as Exortações Apostólicas
Familiaris consortio – escrita por São João Paulo II em 1981 – e Amoris
laetitia (AL) estimularam o empenho doutrinal e pastoral da Igreja ao serviço
dos jovens, dos esposos e das famílias.
Tendo em conta «as mudanças
antropológico-culturais» (AL, 32) que se acentuaram ao longo de trinta e cinco
anos, o Papa Francisco quis comprometer ainda mais a Igreja no caminho do
discernimento sinodal. O seu discurso de 17 de outubro de 2015, proferido
durante a XIV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre a família,
exorta a uma «escuta recíproca» no meio do povo de Deus, «todos à escuta do
Espírito Santo, o “Espírito da verdade” (Jo 14, 17), para conhecer aquilo que
Ele “diz às Igrejas” (Ap 2, 7)». E especifica que não é «possível falar da
família sem interpelar as famílias, auscultando as suas alegrias e as suas
esperanças, os seus sofrimentos e as suas angústias».[4]
Hoje, ao colher os frutos do
discernimento sinodal, a Amoris laetitia oferece um ensinamento valioso que
devemos continuar a perscrutar: a esperança bíblica da presença amorosa e
misericordiosa de Deus, que permite viver «histórias de amor» mesmo quando se
enfrentam «crises familiares» (AL, 8); o convite a adotar «o olhar de Jesus»
(AL, 60) e a estimular incansavelmente «o crescimento, a consolidação e o
aprofundamento do amor conjugal e familiar» (AL, 89); o apelo a descobrir que o
amor no matrimónio «sempre dá vida» (AL, 165) e que é «real» precisamente no
seu modo «limitado e terreno» (AL, 113), como nos revela o mistério da
Encarnação. O Papa Francisco afirma «a necessidade de desenvolver novos
caminhos pastorais» (AL, 199) e de «reforçar a educação dos filhos» (AL, cap.
VII), enquanto convoca a Igreja a «acompanhar, discernir e integrar a
fragilidade» (AL, cap. VIII), superando uma concepção reduzida da norma, e a
promover «a espiritualidade que brota da vida familiar» (AL, 313).
Como tive a oportunidade de dizer aos
jovens reunidos em Tor Vergata durante o Jubileu da Esperança, «a fragilidade
[…] faz parte da maravilha que somos»: não fomos feitos «para uma vida onde
tudo é óbvio e parado, mas para uma existência que se renova constantemente no
dom, no amor».[5] Para servir à missão de anunciar o Evangelho
da família às novas gerações, temos de aprender a evocar a beleza da vocação ao
matrimónio exatamente no reconhecimento da fragilidade, de modo a despertar «a
confiança na graça» (AL, 36) e o desejo cristão de santidade. Temos também de
apoiar as famílias, em particular aquelas que sofrem tantas formas de pobreza e
violência presentes na sociedade contemporânea.
Agradeçamos ao Senhor pelas famílias
que, apesar das dificuldades e desafios, vivem «a espiritualidade do amor
familiar […] feita de milhares de gestos reais e concretos» (AL, 315). Exprimo
também a minha gratidão aos Pastores, aos agentes pastorais, às Associações de
fiéis e aos Movimentos eclesiais empenhados na pastoral familiar.
Ainda mais do que há dez anos, o nosso
tempo é marcado por rápidas transformações que exigem uma especial atenção
pastoral às famílias, às quais o Senhor confia a tarefa de participar na missão
da Igreja de proclamar e testemunhar o Evangelho.[6] Na verdade,
existem lugares e circunstâncias em que a Igreja «não pode tornar-se sal da
terra»[7] senão através dos fiéis leigos e, em particular, das
famílias. Por isso, o compromisso da Igreja neste campo deve ser renovado e
aprofundado, para que aqueles que o Senhor chama ao matrimónio e à família
possam viver o seu amor conjugal em Cristo e os jovens se sintam atraídos pela
intensidade da vocação matrimonial na Igreja.
Considerando as mudanças que continuam
a influenciar as famílias, decidi convocar, para outubro de 2026, os
Presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, a fim de proceder, na
escuta recíproca, a um discernimento sinodal sobre os passos a dar na
transmissão do Evangelho às famílias de hoje, à luz da Amoris laetitia e
levando em conta o que se está a realizar nas Igrejas locais.
Confio este caminho à intercessão de
São José, guardião da Sagrada Família de Nazaré.
Vaticano, Solenidade de São José, 19
de março de 2026.
LEÃO PP. XIV
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[1]
Conc. Ecum. Vat. II, Const. Past. Gaudium et spes, 52.
[2]
Ibid.
[3]
Id., Const. dogm. Lumen gentium, 11.
[4]
Francisco, Discurso na Comemoração do Cinquentenário da Instituição do Sínodo
dos Bispos (17 de outubro de 2015).
[5]
Homilia na Missa do Jubileu dos Jovens (3 de agosto de 2025).
[6]
Cf. Exort. ap. Familiaris consortio (22 de novembro de 1981), 17.
[7]
Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, 33.
[00414-PO.01]
[Texto original: Italiano]
Fonte: Vatican news
